Histeroscopia e infertilidade: como pode ajudar

Veja como a histeroscopia contribui na investigação da infertilidade e no preparo do útero para a gravidez.

4 min de leitura
Revisão médica: Dr. Leonardo Custodio (CRM/PR 38.450) ·
Mulher gestante em consulta com uma médica ginecologista em um consultório claro e acolhedor

Quando um casal enfrenta dificuldade para engravidar, a investigação procura entender cada etapa que precisa funcionar para uma gestação acontecer — e o útero, onde o embrião se implanta, é uma dessas peças. A histeroscopia é o exame que permite olhar diretamente para dentro da cavidade uterina e, em muitos casos, tratar no mesmo procedimento alterações que podem interferir na fertilidade. Entender quando ela ajuda, e quando não muda o resultado, evita exames desnecessários e direciona melhor o cuidado.

O que é a histeroscopia

A histeroscopia usa um aparelho fino com câmera, o histeroscópio, introduzido pela vagina e pelo colo do útero, sem cortes na barriga. Uma pequena quantidade de líquido (em geral soro fisiológico) distende a cavidade para que a parede interna do útero (o endométrio) seja vista em detalhe. Costuma-se dividir o procedimento em dois tipos:

  • Diagnóstica: apenas para visualizar a cavidade e identificar alterações. Geralmente é feita em consultório/ambulatório, rápida, sem anestesia geral.
  • Cirúrgica (operatória): quando, além de olhar, é preciso tratar — por exemplo, retirar um pólipo. Costuma ser realizada em ambiente hospitalar, com sedação ou anestesia geral, conforme o caso.

A escolha do tipo de anestesia depende do procedimento, do que será tratado e da avaliação individual da paciente.

Por que avaliar o útero na infertilidade

Para que a gestação se inicie, o embrião precisa se implantar em uma cavidade uterina saudável. Algumas alterações na cavidade podem dificultar essa implantação ou aumentar o risco de perda gestacional. A histeroscopia é considerada o padrão-ouro para avaliar o interior do útero, porque permite ver diretamente e, frequentemente, tratar essas condições na mesma oportunidade. Entre os achados mais relevantes para a fertilidade estão:

  • Pólipos endometriais — crescimentos do revestimento interno do útero.
  • Miomas submucosos — miomas que se projetam para dentro da cavidade e a deformam.
  • Sinéquias (aderências) intrauterinas — em casos extensos, configuram a síndrome de Asherman, frequentemente associada a redução do fluxo menstrual e a dificuldade para engravidar.
  • Septo uterino — uma divisão na cavidade presente desde o nascimento, que pode estar relacionada a perdas gestacionais de repetição.

O que a histeroscopia pode tratar

Quando uma dessas alterações é encontrada, a histeroscopia cirúrgica permite removê-la de forma minimamente invasiva, sem cortes externos. A retirada de pólipos antes de tratamentos de fertilidade, por exemplo, faz parte da prática clínica em muitos serviços, com estudos sugerindo possível benefício nas taxas de gravidez — embora a qualidade da evidência ainda seja limitada. No caso de miomas submucosos, a correção por histeroscopia pode controlar sangramentos e restaurar uma cavidade mais favorável à implantação; e, nas sinéquias, a liberação das aderências busca recuperar a anatomia da cavidade. Para o septo uterino, a correção (metroplastia) é uma possibilidade discutida caso a caso: a evidência é limitada e os principais consensos divergem — alguns sugerem oferecê-la em decisão compartilhada para mulheres com perdas gestacionais de repetição, enquanto outros não recomendam a cirurgia de rotina. Cada indicação é individual e decidida em conjunto com a paciente.

Antes da fertilização in vitro: quando faz sentido

Aqui vale uma observação importante e baseada em evidência. A histeroscopia é muito útil quando há suspeita de alteração na cavidade (por exemplo, em uma ultrassonografia alterada) — identificar e tratar essas mudanças pode otimizar as chances. Por outro lado, dois grandes estudos randomizados (inSIGHT e TROPHY) mostraram que a histeroscopia de rotina, em mulheres com cavidade uterina normal ao ultrassom, não aumentou as taxas de nascimento vivo, mesmo após falhas anteriores de FIV. Ou seja: o exame tem valor quando há algo a investigar ou tratar, e não como passo automático para todas. Por isso a indicação é sempre personalizada.

Preparo, recuperação e riscos

O preparo costuma ser simples; a equipe orienta sobre jejum (quando há sedação/anestesia) e melhor momento do ciclo. Procedimentos diagnósticos são rápidos, em geral de 10 a 15 minutos. A recuperação costuma ser tranquila: pode haver cólicas leves, semelhantes às menstruais, por alguns dias, e sangramento ou borra por até cerca de uma semana. A maioria das mulheres recebe alta no mesmo dia.

Como todo procedimento, há riscos, geralmente raros: sangramento, infecção (tratável com antibiótico), perfuração uterina, e, nos exames sem anestesia, sensação de mal-estar ou desmaio. Esses riscos devem ser conversados com a equipe antes do procedimento.

A histeroscopia é uma ferramenta valiosa na jornada de quem busca engravidar, mas seu maior benefício vem de uma indicação bem pensada, no momento certo e para a paciente certa. Se você está investigando a fertilidade ou se preparando para um tratamento de reprodução, o melhor caminho é uma avaliação individualizada, em que cada exame e cada conduta façam sentido para a sua história.

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Dra. Melissa Amoroso

Sobre a autora

Dra. Melissa AmorosoGinecologista · CRM-PR 39.552 · RQE 34.292

A Dra. Melissa Amoroso é ginecologista e Diretora Técnica da Clínica Femi Saúde. Dedica-se ao cuidado da mulher em todas as fases da vida, da primeira menstruação à menopausa, com foco em medicina preventiva: consultas de rotina, preventivo do colo do útero e orientação individualizada. Em contracepção, oferece aconselhamento para a escolha do método mais adequado a cada paciente e realiza a inserção de DIU (hormonal e de cobre) e do Implanon®, além da laqueadura. É especialista em cirurgia ginecológica minimamente invasiva, com fellow em videolaparoscopia e histeroscopia. Realiza histeroscopia diagnóstica e cirúrgica — para investigar e tratar sangramentos uterinos anormais, pólipos e miomas — e cirurgias por vídeo, como histerectomia e remoção de cistos de ovário e miomas, com atenção especial à endometriose. Na ginecologia regenerativa e estética íntima, cuida da saúde íntima com laser de CO2 fracionado e radiofrequência e realiza cirurgias íntimas, como a ninfoplastia a laser, sempre priorizando o bem-estar, a segurança e a confiança de suas pacientes.

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