Gestrinona (chip da beleza): o que é, riscos e regras

Entenda o que é a gestrinona, por que o implante hormonal ficou conhecido como chip da beleza, quais são os riscos e o que dizem o CFM e a Anvisa.

4 min de leitura
Revisão médica: Dr. Leonardo Custodio (CRM/PR 38.450) ·
Implantes hormonais demonstrativos sob uma lupa, ao lado de documentos de avaliação médica.

Nos últimos anos, o chamado "chip da beleza" virou assunto nas redes sociais, prometendo mais disposição, ganho de massa muscular, perda de gordura e aumento da libido. Na maioria das vezes, o hormônio por trás desse implante é a gestrinona. Mas o que é essa substância, para que ela foi criada e quais são os riscos de usá-la com finalidade estética? Este texto explica, com base no que se sabe hoje, o que você precisa considerar antes de qualquer decisão.

O que é a gestrinona

A gestrinona é um esteroide sintético derivado da 19-nortestosterona. Ela tem ação antiprogestagênica e androgênica — ou seja, parte dos seus efeitos se parece com a de hormônios masculinos. Historicamente, foi desenvolvida e estudada para o tratamento da endometriose, por sua capacidade de reduzir a atividade do endométrio e, com isso, as dores associadas à doença.

Por que ficou conhecida como "chip da beleza"

No Brasil, a gestrinona passou a ser usada em implantes subcutâneos manipulados (pequenos bastões colocados sob a pele), muitas vezes com finalidade estética. Os efeitos androgênicos — como aumento de massa muscular, redução de gordura e da menstruação — foram divulgados como benefícios, e o implante ganhou o apelido de "chip da beleza".

É importante separar as coisas: o "chip da beleza" não é o implante anticoncepcional, popularmente chamado de chip anticoncepcional. O Implanon é um medicamento industrializado, aprovado para evitar a gravidez, com dose e duração definidas em bula. Os implantes de gestrinona são, em geral, manipulados, sem a mesma padronização.

Quais são os riscos

Por seu efeito androgênico, a gestrinona pode causar efeitos adversos que vão além do incômodo estético. Os mais relatados são:

  • Acne e aumento da oleosidade da pele
  • Aumento de pelos no rosto e no corpo (hirsutismo)
  • Queda de cabelo com padrão semelhante à calvície masculina
  • Engrossamento da voz, que pode ser irreversível
  • Aumento do clitóris (clitoromegalia)
  • Alterações no colesterol, com redução do HDL (o "colesterol bom"), e possível impacto na saúde cardiovascular
  • Alterações de humor, irritabilidade e alterações no fígado
  • Interrupção ou irregularidade da menstruação

Nos implantes manipulados, há ainda um problema adicional: a quantidade de hormônio liberada pode variar, e nem sempre é possível prever a intensidade e a duração dos efeitos. Depois de inserido, o implante continua liberando hormônio até ser retirado ou se esgotar.

Gravidez: um cuidado essencial

A gestrinona não deve ser usada como método anticoncepcional e é contraindicada na gravidez, pelo risco de efeitos androgênicos sobre o feto. Quem usa esse tipo de implante precisa de um método contraceptivo eficaz associado — e deve procurar a médica imediatamente se houver suspeita de gravidez.

O que dizem o CFM e a Anvisa

Em 2023, o Conselho Federal de Medicina publicou a Resolução CFM nº 2.333/2023, que veda a prescrição de terapias hormonais com esteroides androgênicos e anabolizantes com finalidade estética, para ganho de massa muscular ou melhora do desempenho esportivo. Na prática, isso inclui o uso de implantes hormonais com esse objetivo.

A Anvisa também tem adotado medidas de controle sobre a manipulação, a propaganda e o uso de implantes hormonais. Como as regras sobre esses produtos vêm mudando nos últimos anos, vale sempre confirmar a situação atual com a sua médica.

O ponto central é: não existe indicação médica reconhecida para usar gestrinona com fins estéticos, e os riscos podem superar os benefícios prometidos.

E para endometriose?

A gestrinona já foi usada no tratamento da endometriose e há estudos que mostram redução da dor. Porém, hoje existem opções com melhor perfil de segurança e mais evidência, como progestagênios orais, anticoncepcionais hormonais e o DIU hormonal, além da cirurgia em casos selecionados. A escolha do tratamento é individual — leia mais em endometriose: sintomas, diagnóstico e tratamento.

Já uso o implante. E agora?

Se você já tem um implante de gestrinona, não precisa entrar em pânico — mas vale:

  • Agendar uma avaliação ginecológica para revisar sua saúde e os exames
  • Observar sinais como engrossamento da voz, aumento de pelos, queda de cabelo ou alterações no clitóris, que devem ser comunicados à médica o quanto antes
  • Checar colesterol e função do fígado, conforme orientação médica
  • Garantir o uso de um método contraceptivo eficaz
  • Conversar sobre a retirada, se for o caso

Alternativas seguras para os objetivos mais comuns

Muitas mulheres procuram o "chip da beleza" em busca de energia, controle de peso, alívio da TPM ou suspensão da menstruação. Para cada um desses objetivos existem caminhos com respaldo científico:

  • Suspender ou reduzir a menstruação: métodos como o DIU hormonal, o implante contraceptivo ou pílulas de uso contínuo, com indicação médica
  • Composição corporal e disposição: acompanhamento de alimentação, atividade física, sono e avaliação de causas como alterações da tireoide ou deficiências nutricionais
  • Libido: investigação das causas físicas, hormonais, emocionais e de relacionamento, com tratamento direcionado

Hormônios são medicamentos potentes e devem ser usados apenas quando há indicação clara e acompanhamento adequado. Se você tem dúvidas sobre implantes hormonais, uma consulta ginecológica é o melhor lugar para entender, com informação honesta, o que faz sentido para a sua saúde.

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Tags:

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Dra. Vanessa Amoroso

Sobre a autora

Dra. Vanessa AmorosoGinecologista e Mastologista · CRM-PR 29.243 · RQE 18.893

A Dra. Vanessa Amoroso é ginecologista e mastologista e Diretora Médica da Clínica Femi Saúde. Sua abordagem é completa e acolhedora: acompanha a saúde da mulher com consultas de rotina, exames preventivos e aconselhamento sobre métodos anticoncepcionais, como DIU e implantes. É especialista em estética íntima e ginecologia regenerativa, que utiliza tecnologias modernas para restaurar e revitalizar a saúde vaginal. Realiza tratamentos com laser e radiofrequência e cirurgias íntimas que devolvem conforto e autoestima, e trata a incontinência urinária de forma eficaz e minimamente invasiva. Na ginecologia endócrina, oferece suporte para questões hormonais, como menopausa e síndrome ovariana metabólica poliendócrina (SOMP), e acompanha questões de sexualidade, ajudando a melhorar a qualidade de vida em todas as fases. Na mastologia, dedica-se à prevenção, ao diagnóstico e ao tratamento de condições como nódulos, cistos e dores mamárias, incluindo cirurgias de reconstrução mamária — sempre com o objetivo de devolver às pacientes não apenas a saúde, mas também a confiança e o bem-estar.

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