DIU e infecção: o DIU aumenta o risco de doença inflamatória pélvica?
O DIU causa infecção? Entenda o risco real de doença inflamatória pélvica, quando ele existe e os sinais de alerta. Ginecologia em Curitiba.

Poucas dúvidas sobre o DIU são tão persistentes quanto o medo de infecção. A ideia de que um dispositivo dentro do útero abriria caminho para bactérias e provocaria doença inflamatória pélvica, com risco à fertilidade, afastou gerações de mulheres do método. Esse receio tem origem histórica real, mas não corresponde ao que os DIUs modernos e as pesquisas das últimas décadas mostram. Este texto explica de onde veio o mito, o que os estudos dizem sobre o risco real, em que momento ele existe, quais exames fazem sentido antes da inserção e o que fazer se uma infecção acontecer durante o uso.
De onde vem o medo: a história por trás do mito
Nos anos 1970, um DIU chamado Dalkon Shield foi associado a um número elevado de infecções graves. O problema estava no seu fio de retirada, formado por múltiplos filamentos trançados, que funcionava como um pavio e conduzia bactérias da vagina para dentro do útero. O dispositivo foi retirado do mercado, e a reputação de todos os DIUs ficou abalada por décadas.
Os DIUs atuais, de cobre ou hormonais, usam fio monofilamentar, que não tem esse efeito. Ainda assim, a lembrança daquele episódio sobrevive em bulas antigas, em recomendações desatualizadas e no senso comum, e é a raiz da associação entre DIU e infecção.
O que os estudos mostram sobre o risco real
A doença inflamatória pélvica é uma infecção do útero, das trompas e dos ovários, causada na maior parte das vezes por bactérias sexualmente transmissíveis, sobretudo clamídia e gonococo. Um grande estudo coordenado pela Organização Mundial da Saúde, com dezenas de milhares de inserções em vários países, mostrou que o risco em usuárias de DIU é baixo: cerca de um a dois casos para cada mil mulheres por ano após o período inicial, número semelhante ao de mulheres que não usam o método.
Revisões posteriores confirmaram esse achado e acrescentaram um dado importante: quando a infecção ocorre, ela está ligada à presença de bactérias no colo do útero no momento da inserção, e não ao DIU em si. Não é o dispositivo que causa a infecção, mas a passagem pelo colo em uma mulher que já carregava uma infecção sem sintomas. Para o DIU hormonal de levonorgestrel, alguns estudos sugerem risco ainda menor, possivelmente porque o hormônio espessa o muco cervical e dificulta a subida de bactérias.
Quando o risco é maior: as primeiras semanas
O período de atenção são as três primeiras semanas após a inserção. Nesse intervalo, o risco de doença inflamatória pélvica é cerca de seis vezes maior do que no restante do uso, ainda que continue pequeno em números absolutos, e depois cai para o nível de base e ali permanece por todos os anos seguintes. Esse padrão reforça a explicação anterior: o momento crítico é o da passagem pelo colo, não a permanência do DIU no útero.
Por isso, a técnica asséptica durante a inserção e a avaliação prévia de sintomas de infecção fazem diferença. O uso de antibiótico preventivo, por outro lado, não é recomendado pelas diretrizes, porque não reduziu o número de infecções nos estudos.
Exames antes da inserção: para quem e quando
Os critérios de elegibilidade da Organização Mundial da Saúde e as recomendações da FEBRASGO não exigem exames laboratoriais de rotina antes de colocar o DIU em mulheres sem sintomas e sem fatores de risco. A avaliação clínica, com história sexual e exame ginecológico, é suficiente na maior parte dos casos.
Para mulheres com maior chance de infecção sexualmente transmissível, como as com menos de 25 anos, parceiro novo ou múltiplos parceiros recentes, a pesquisa de clamídia e gonococo é recomendada. As diretrizes permitem coletar o exame no mesmo dia da inserção, sem adiar o procedimento, e tratar se o resultado for positivo, mantendo o DIU. Já quem apresenta corrimento purulento, dor pélvica ou infecção confirmada no momento da consulta deve tratar primeiro e inserir depois, porque nessa situação a inserção é contraindicada pelos critérios da OMS.
Se a infecção acontecer: é preciso retirar o DIU?
Na maioria dos casos, não. As recomendações atuais orientam iniciar o tratamento com antibióticos e manter o DIU, reavaliando a resposta em dois a três dias. Se houver melhora, o dispositivo pode ficar. A retirada é considerada quando não há resposta ao tratamento ou quando a própria mulher prefere removê-lo. Retirar o DIU sem necessidade expõe a mulher a uma gravidez não planejada e não acelera a cura.
Vale distinguir outras situações. A presença de Actinomyces no preventivo de uma mulher sem sintomas não exige retirada nem tratamento, apenas acompanhamento. Candidíase e vaginose bacteriana, comuns em qualquer mulher, não são doença inflamatória pélvica e são tratadas normalmente com o DIU no lugar.
Sinais de alerta e como se proteger
Vale procurar atendimento sem demora se, sobretudo nas primeiras semanas, surgirem:
- dor pélvica persistente, diferente das cólicas leves de adaptação;
- febre ou calafrios;
- corrimento com odor forte ou aspecto purulento;
- dor durante as relações sexuais;
- sangramento anormal acompanhado de dor.
A proteção mais eficaz continua sendo o preservativo, já que o DIU não protege contra infecções sexualmente transmissíveis. Rastreamento periódico, especialmente com parceiro novo, e o retorno de revisão após a inserção completam os cuidados.
DIU, infecção e fertilidade futura
A pergunta final costuma ser se o DIU pode comprometer a chance de engravidar no futuro. As evidências mostram que não. Estudos que compararam mulheres com infertilidade por obstrução das trompas e mulheres férteis encontraram associação com infecção prévia por clamídia, não com o uso de DIU. Após a retirada, a fertilidade volta ao nível esperado para a idade em pouco tempo. Em Curitiba, a equipe da Femi Saúde realiza a inserção com avaliação prévia cuidadosa e acompanhamento nas primeiras semanas, para que o método seja usado com segurança e tranquilidade.
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