DIU em quem nunca teve filhos: mitos e verdades
Quem nunca teve filhos pode usar DIU? Mitos e verdades sobre dor, expulsão, infecção e fertilidade, segundo OMS e FEBRASGO. Ginecologia em Curitiba.

A frase de que o DIU é só para quem já teve filhos ainda é repetida em consultórios, em conversas de família e em buscas na internet, e faz muitas mulheres descartarem um dos métodos contraceptivos mais eficazes que existem antes mesmo de conhecê-lo. A recomendação fez sentido há algumas décadas, com dispositivos que já não existem, mas foi superada pelas evidências. Hoje, as principais sociedades médicas colocam o DIU entre as primeiras opções também para quem nunca engravidou. Este texto reúne os mitos mais comuns sobre o DIU em nulíparas e os confronta com o que dizem os estudos e as diretrizes, para que a escolha seja feita com informação, e não com receio.
Por que esse mito existe
Nos anos 1970 e 1980, um modelo de DIU com fio multifilamentar foi associado a infecções graves, e a recomendação da época passou a reservar o método para mulheres que já tinham filhos e não desejavam mais engravidar, como forma de reduzir o impacto de uma eventual perda de fertilidade. As bulas incorporaram essa restrição, os dispositivos eram maiores e a experiência com nulíparas era pequena.
O cenário mudou por completo. Os DIUs atuais usam fio monofilamentar, existem modelos menores, e grandes estudos acompanharam mulheres sem filhos por anos. O que restou foi a lembrança da restrição, não a razão dela.
O que dizem as diretrizes hoje
Os critérios de elegibilidade da Organização Mundial da Saúde classificam o DIU de cobre e o DIU hormonal de levonorgestrel na categoria 2 para nulíparas, o que significa que as vantagens superam os riscos e que o método pode ser usado. A FEBRASGO recomenda os métodos reversíveis de longa duração, DIU e implante, como primeira linha para todas as mulheres, inclusive adolescentes e nulíparas, posição compartilhada pelo Ministério da Saúde e por sociedades internacionais. Não ter filhos, portanto, não é contraindicação, e sim um dos perfis para os quais o método é ativamente indicado.
Mito: o útero de quem não teve filhos não comporta o DIU
O útero de uma mulher que nunca engravidou é, em média, um pouco menor, mas está longe de ser pequeno demais para o DIU. A medição da cavidade uterina feita antes da inserção confirma se o modelo escolhido é adequado. Para úteros menores, existem versões reduzidas tanto de cobre quanto hormonais, e o DIU hormonal de menor tamanho foi desenvolvido pensando justamente nesse perfil. O ultrassom após a inserção, quando indicado, verifica o posicionamento.
Mito: colocar dói muito mais em quem não teve filhos
Aqui há uma parte de verdade. O colo do útero de quem nunca passou por um parto tende a ser mais fechado, e a inserção pode ser um pouco mais desconfortável. Os estudos mostram, porém, que a dor é descrita pela maioria como uma cólica intensa e curta, que passa em minutos. Há recursos para tornar o procedimento mais tolerável: analgésicos antes da inserção, anestesia local no colo, técnica cuidadosa, escolha de instrumentais finos e, para quem tem muita ansiedade, sedação em ambiente apropriado. O medo da dor não deve ser motivo para descartar o método sem uma conversa sobre essas opções.
Mito: o DIU causa infertilidade
Esse é o mito mais nocivo, porque toca em algo precioso. As evidências são claras: o DIU não causa infertilidade. Estudos que compararam mulheres com infertilidade tubária e mulheres férteis mostraram que o fator associado à obstrução das trompas era a infecção prévia por clamídia, independentemente do uso de DIU. Após a retirada, a fertilidade retorna ao nível esperado para a idade já no primeiro ciclo no caso do cobre e em poucas semanas no caso do hormonal. Muitas mulheres engravidam nos primeiros meses após remover o dispositivo.
Mito: expulsão e infecção são muito mais comuns em nulíparas
A expulsão, quando o útero empurra o dispositivo para fora, ocorre em uma pequena parcela das usuárias, com maior frequência no primeiro ano. Em nulíparas, alguns estudos encontram uma taxa discretamente maior, outros não encontram diferença; em todos os casos, ela continua baixa e o DIU pode ser recolocado. Quanto à infecção, o risco de doença inflamatória pélvica está ligado a bactérias presentes no colo no momento da inserção, não ao número de filhos, e após as primeiras semanas é semelhante ao de quem não usa o método. A perfuração é rara e tem como principal fator de risco a amamentação, não a nuliparidade.
Verdades que valem para todas
Algumas informações são verdadeiras e merecem ser ditas com clareza:
- os primeiros meses são de adaptação, com cólicas e sangramento irregular, que tendem a diminuir;
- o DIU de cobre pode aumentar o fluxo e a cólica em quem já tem menstruação intensa, e o hormonal costuma reduzi-los;
- o método não protege contra infecções sexualmente transmissíveis, e o preservativo continua necessário com parceiros novos;
- a escolha entre cobre e hormonal, e entre tamanhos, deve levar em conta o perfil de cada mulher;
- uma revisão após a inserção e retornos anuais fazem parte do cuidado.
Em Curitiba, a equipe da Femi Saúde insere DIU em mulheres que nunca engravidaram com frequência, com avaliação prévia, atenção ao conforto durante o procedimento e acompanhamento depois. O que define a indicação é o desejo de uma contracepção eficaz e reversível, não a história reprodutiva.
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